sexta-feira, 21 de julho de 2017

Deus Vaélico – A Magia na Iniciação Guerreira na Ibéria Celta




Este texto fez parte, inicialmente, da minha palestra na Convenção de Bruxos e Magos de Paranapiacaba, esse ano, na sala Druídica. E agora o exponho com pequenos acréscimos aqui.
A Península Ibérica, antes da chegada dos romanos, era habitada por diversas tribos, cada uma com suas particularidades, culturas e deuses. A maior parte do conhecimento que temos dessas tribos não é por nenhuma forma de registro escrito por elas mesmas; podemos entende-las pelos achados arqueológicos e escritos do dominador romano, e posteriormente com o folclore popular e a cristianização dos costumes. Então este é um trabalho longo e muitas vezes inconclusivo, formando um mosaico de possibilidades.
O deus que tratamos nesse momento foi cultuado pela tribo dos Vetões, de cultura celta, que habitou a região que hoje compreende as regiões de Castilha e León, Extremadura e o leste de Portugal. O culto a esse deus tem suas marcas na região de Ávila (que também foi o lugar de maior concentração dos vetões), encontradas no município de Candelada, junto a uma necrópole com marcas de culto a Vaélico, e também em uma ermida de uma localidade chamada Postoloboso, hoje dedicada a um santo cuja principal função é curar cães raivosos.
Esses achados nos trouxeram algumas marcas de quem seria esse deus: as aras votivas de Candelada apontam para um deus relacionado à cura e o vaticínio; porém essas mesmas aras nos mostram um culto mais recente, da época romana, em que Vaélico, por motivos óbvios de controle e dominação, havia perdido suas principais características.
Sabe-se que as confrarias guerreiras da Ibéria, tanto calaicas-lusitanas quanto vetãs, possuíam uma iniciação guerreira, e que os membros dessas confrarias tinham o costume de passar uivando e assustando os acampamentos romanos. Portanto, os estudos para entender Vaélico e seu papel na Ibéria Celta, anterior à chegada dos romanos, não podem deixar de passar pelo simbolismo do lobo e os atos iniciáticos dessas confrarias.
Qual é a relação de Vaélico com os lobos? A principal é que seu nome diz exatamente “Deus Lobo” ou “O Ululante”. O lobo é um animal que teve sua imagem relacionada pelos celtas e outras tribos indo-européias à figura dos deuses guerreiros, ao Submundo ou Outro Mundo, à noite escura, à magia e transmutação. Portanto fica-nos muito claro que Vaélico, mais que apenas um deus da cura e oracular, é o deus do Outro Mundo celta dos Vetões, aquele que conduz os guerreiros ao descanso final, o deus da magia e transmutação, e o deus do furor da batalha, aquele que reúne a alcatéia e a mantém unida, portanto o deus da iniciação guerreira.
Mas o que de fato acontecia nas iniciações guerreiras dessas confrarias? O que se sabe é que esses guerreiros iniciados ganhavam uma posição de elite em relação aos outros guerreiros, que eles se ausentavam por muito tempo do resto da tribo para passarem por essa iniciação que, ao que tudo indica, incluía imersões em saunas, ervas, estados alterados de consciência; um verdadeiro processo mágico em que o homem incorporava em si o furor do lobo, a licantropia.
Sauna iniciática vettona de Ulaca. Solosancho, Ávila.

A partir desse momento passavam a viver vidas mais ascéticas, com pouca comida, enfrentando as adversidades do clima, e assim endurecendo o corpo físico; também passavam a vestir cores escuras, relacionadas à noite, bem como usar objetos relacionados aos lobos, como diversas fíbulas encontradas nos achados arqueológicos de Numância (região à margem do Rio D’Ouro), e

Fíbula celtibérica de cabeça de Lobo. Garray (Soria)
um provável uso de máscaras de lobo, peles e dentes. E passavam a fazer parte de um alto escalão de guerreiros, guerreiros especiais.

Guerreiros com máscaras de lobo frente a um cadáver de outro guerreiro ao que devoram os abutres. Estela de Zurita
Se voltarmos os nossos olhos para os outros povos celtas, encontraremos lendas sobre confrarias guerreiras de alto escalão, como os Fianna e os Cavaleiros da Távola Redonda. Eram guerreiros iniciados em mistérios aos quais os guerreiros comuns ignoravam, o que nos leva os aproximar aos guerreiros de Vaélico. 
Para finalizar, esses guerreiros iniciados, os quais podemos chamar de “guerreiros mágicos”, nos fazem levantar algumas hipóteses filosóficas: se Vaélico é o deus do Outro Mundo, que no mundo celta está relacionado às águas, o passado e aos antepassados, podemos pensar que o verdadeiro guerreiro mágico encontrava-se com Vaélico entrando profundamente em seu inconsciente, conhecendo profundamente seus medos, vencendo-os e conhecendo suas potencialidades e indo muito além delas. É um homem que alcançou a Soberania, pois se conhece profundamente. Sabe fazer bom uso dos seus dons e da sua fúria, usando-a com propósito e direcionamento, reconhecendo a necessidade do bem da Tribo, como é o caso na alcatéia de lobo. Ele morreu para o antigo homem e renasceu sob as águas e a dedicação ao Deus Lobo.
Hoje vivemos em uma sociedade diferente da dos Vetões, dos antigos celtas, mas nem por isso deixamos de ter nossas batalhas; elas são simplesmente diferentes, porém encontrar-se com os ensinamentos de Vaélico ainda é muito importante. Nas nossas batalhas ainda precisamos conhecer profundamente a nós mesmos, saber quem realmente somos, onde começa o outro e termina o eu. Precisamos do ensinamento do lobo que nos dá a energia necessária para lutar pelas nossas crenças e ideais, como também o pensamento do bem maior, do lobo que não trabalha somente para si, mas que pensa também na sobrevivência da Tribo, porque sabe que seus atos ressoam em um âmbito maior. E para tudo isso não é demais dizer que podemos ser um guerreiro soberano de Vaélico, o qual guarda a honra, a lealdade e os mistérios da vida e morte em todos os âmbitos de sua existência, ou podemos ser soldados, que seguem sem consciência, obedecendo ordens alheias apenas pelo ato de sobreviver ou pelo seu interesse momentâneo.

Fontes Bibliográficas:    
ALMAGRO-GORBEA, Martín & SANCHÍS, Jesús R.Alvarez – La ‘Sauna’ de Ulaca: Saunas y Baños Iniciáticos en el Mundo Céltico. Cuadernos de arqueología de la Universidad de Navarra, Nº 1, págs. 177-254. Navarra, 1993.
GARCÍA, Gonzalo Rodrígues – La Figura del Lobo y la Tradición Guerreira de la Hispania Céltica. Toledo, 2013;
MORENO, Eduardo Sánchez – Aproximación a la Religión de los Vetones: Dioses, Ritos y Santuarios.  Studia Zamorensia, Nº. 4,  págs. 115-147. Zamora, 1997.





sexta-feira, 23 de junho de 2017

Solstício de Inverno: A criança nasceu no mundo moderno.


Para os povos antigos as estações solares eram de suma importância, afinal elas estavam relacionadas diretamente ao ciclo da colheita e o bem-estar do rebanho, por isso o culto ao sol era totalmente significativo e vivido.
Hoje já não vivemos essa realidade,  a sociedade moderna, nem mesmo aqueles que plantam e colhem, pois é mais lucro, do que ligação real e sacra com o alimento, está ligada a realidade física e ritual dos ciclos solares.
Então qual é a importância real da chegada do solstício de inverno para o paganismo moderno?
Pensando na simbologia da mãe que perde seu filho pelas forças obscuras e invisíveis e o tem de volta após sua intensa busca, trazendo a verdade à tona, que ela não o matou, foi lhe tirado, ela a deusa égua, a força da soberania da terra, que as forças também brotam do mundo mais além; podemos entender que esse retorno solar, é o retorno do nosso conhecimento profundo sobre nós mesmos e o mundo que nos cerca, após o mergulho no interior do Samhain, na reflexão profunda do nosso passado e das heranças familiares,  a luz solar que retorna traz a claridade sobre o que somos, qual é a nossa verdade, a nossa busca e o que sustenta a nossa soberania.
E, a partir disso estaremos prontos para no fim do inverno, quando a criança solar já estiver maior, seguir essa força soberana que move as nossas vidas, plantar a nossa parte, soando assim a nossa canção com o todo harmoniosamente.

domingo, 28 de agosto de 2016

De jogos, moradas e amores


              Estar ali novamente já não era surpresa, porém a colina estava diferente; havia muitos jovens, um pouco adiante de mim, jogando um jogo de tacos que eu não entendia muito bem. Fiquei de pé olhando, eles não pareciam me ver, afinal, eu não era do seu tempo e espaço, comecei a me sentir uma espécie de invasora.
             " Gosta de jogos?"
             Assustei-me com a pergunta e ao meu lado estava ele, não mais menino e nem tão jovem, mas muito longe de ser velho, bem próximo do início da vida adulta, mas os olhos quentes e brilhantes e o sorriso eram do menino, como se ele sempre o carregasse em si, como se o menino fosse eterno.

              " Já gostei, hoje não tenho tanta certeza"
              " As pessoas se revelam bastante nos jogos, não há como se esconder quando se joga. Jogos físicos, jogos de palavras. Fazem pactos ou os quebram, aprendem ou não, são justas ou injustas. A única coisa que não dá para ser em um jogo é não ser você mesmo. Não gosta mais de conhecer a si e as pessoas, menina? Então não precisa mais de tanto sol?"
               "Não sei, eu nem sei o que estou fazendo aqui." E ele riu, riu muito, me fazendo rir também.
               " Como é engraçado o não saber, porém ainda mais é o pensar que sabe. Vamos! Quero te mostrar algo."
                E o acompanhei em uma caminhada não muito longa, havia tantas árvores frutíferas e água corrente, e o sol era alto e claro, mas sem queimar. Paramos no alto de uma colina, de onde se via uma construção circular de pedra, muito antiga.
              " Há coisas pelo qual se lutar, menina, sua identidade e sua morada são uma delas, essa é a minha morada, tive que lutar por ela, mas antes tive que saber quem sou, e sabendo quem sou, o outro não teve como negar o que é meu por direito. Esperteza? Talvez. Mas o que é nosso, onde nossa essência nasce e descansa, ninguém pode nos tirar. Descubra sua morada, descubra onde quer nascer e descansar. E continue a jogar."
              Os olhos dele brilhavam bastante, tanto quanto o sol ou os olhos de uma criança feliz descobrindo o mundo. E isso me aquecia e sorri.
              " Você muda rápido e com frequência." Comentei e ele me olhou.
              " E você não? Há sempre algo a que se desejar, sonhar e proteger. Há sempre um amor no caminho da vida, que aparece como um doce sonho e por ele devemos quebrar o determinante e se transformar, por ele ser de nenhum espaço e ser de todos. Mergulhar, ficar e alçar voo. E um amor assim é a esperança que acalenta os corações e por ele se monta exércitos, por ele se luta e busca a verdade. E deve ser escondido da destruição, deve ser protegido na estufa, com luz solar, das ambições e injustiças, porque essas sempre estarão à espreita tentando o sufocar e o matar. E eu, menina, estou aqui quando a esperança se acaba, quando o amor e os sonhos estão em risco. Sou o sol sempre jovem, sempre menino, em um riso e uma doce canção. Sou Óengus Mac Og."
             E não mais menino ou jovem, era um cisne que voou no horizonte, e a gratidão cobria meu coração. E estava de volta no meu tempo e espaço, mas sabendo que espaços e tempos são voláteis. E que algo dele brilha em mim, brilha em todos.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Descendência

            Não me surpreendi por mais um dia parar naquela mesma campina e vestida com aquelas roupas que não eram as minhas e no tempo que não era o meu, já esperava o menino aparecer com suas bochechas coradas e seus olhos quentes, mas ao invés dele veio a mim um rapaz, com os mesmos olhos, traços e gestos do menino; era ele sem dúvida, trazia na mão uma harpa dourada e sorriu sentando-se à minha frente como no dia anterior.
              " Está diferente hoje, crescido." Eu lhe falei.
             " São tão ligados à forma, mas fico feliz que já me reconheça, esse é um grande passo, um passo para a essência."
              " Linda harpa! É um instrumento com um dos sons mais lindos, como se não tivesse sido criado por humanos"
               Ele sorriu e pôs-se a tocar, e a melodia era de imensa doçura, nunca ouvira nada igual, o que torna difícil descrever por não haver comparação com nenhuma outra no meu mundo conhecido, nem no canto dos pássaros mais melódicos, apesar de lembrar muito a beleza do canto dos pássaros, porém de nenhum que de fato existisse. E a sensação que me causou também não era tão simples de ser dita, entrei em estado contemplativo, de plena beleza, como se algo nascesse dentro de mim, algo como o amor nos primeiros dias. E o sorriso e as lágrimas se misturaram na minha face.
             " Esse é um dos papéis da música, tocar os sentimentos de tal forma que seja algo primeiro. Meu pai também tem uma harpa, a dele toca as estações, as muda, as cria. Faz o mesmo com os sentimentos, com uma melodia para se alegrar, chorar e sonhar. Parecemos muito com os nossos pais, o nosso modo é apenas a interpretação da forma que eles nos deram. Meu pai dá a abundância da terra, eu dou a abundância da alma. Minha mãe nutre a terra, eu, a alma, ela é um rio, assim como eu, pode ser a vida, como a morte. Depende de que lado do rio você está. Ou crer que o amor, os sonhos e a esperança só tem esse lado encantador da bela harpa? Quando eles transbordam, às vezes eles matam, matam para nascer, não há uma face sem a outra. Quantas guerras não são capazes para minha realização?"

             Fiquei ali, parada, enquanto ele desaparecia, e em tempo, eu voltava para o agora.

Continua...

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

O Nascimento

       
     
         Abri os olhos e ao meu redor estava um mundo desconhecido, não era nada desse tempo, era algo muito antigo, eu não mais me vestia com as roupas que dormira, o que ficava claro que aquilo era um sonho e o abrir os olhos era só uma metáfora para enxergar com alma.
         As minhas roupas eram completamente brancas e na minha cabeça estava uma coroa de flores primaveris, me senti meio criança vestida daquela maneira. Estava em uma belíssima colina, onde o sol nascia em uma perfeita alvorada, as sombras da noite iam aos poucos se desvanecendo e as tonalidades de rosa e vermelho enfeitavam todo o céu e um vento ameno percorria o amanhecer.
          "Foi nessa hora que fui gerado, sou semente da alvorada"
          Virei-me assustada para a voz que me falava, jurava está sozinha, mas não estava. O menino de cabelos louros, bochechas rosadas e olhos azuis se aproximou e sentou-se à minha frente.
           "Ouviu o que disse?" Assenti com a cabeça, não conseguia falar, aqueles olhos azuis eram quentes como brasa e a beleza do menino era tamanha que não podia ser humana. Ele riu, riu, provavelmente, do meu medo, era um riso tão forte e brincalhão, e acabei por rir também. "Percebe que é nessa hora que nasce a esperança no mundo? É nessa hora que as coisas tem potencial de ser?
             " Como se chama?"
             "Nomes são, realmente, importantes?"
              "Suponho que eles nos dão identidade"
              " Supõe errado. As vivências nos dão identidade. Nomes são apenas desejos, desejos e lembranças. É melhor que saiba os motivos do meu nome, do que ele próprio."
               " Sim, parece algo bom"
               " Fui gerado na alvorada e nascido no entardecer, em um dia que durou nove meses. Veja!"
               Ele colocou as mãos nas minhas têmporas, as mãos eram tão quentes, que pareciam capazes de me queimar, fui transportada para um espaço diferente, um lugar feito de pedras, escuro e frio, senti medo, muito medo, porém a luz solar entrou por uma fresta da construção, enchendo tudo de claridade e calor.

             "Viu?" A voz dele me trouxe de volta e ele ria sentado na minha frente.
            "Não vi seu nascimento"
            " Vocês nunca entendem nada. A volta da luz solar foi por muitos séculos a esperança que enchia os corações humanos. Hoje, vocês vivem no escuro e frio, mas não sabem em que ter esperança, por isso não sabem quem eu sou."
           E, simplesmente, desapareceu, o que me fez acordar, sentido em mim ainda o calor do menino.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

A Rainha Loba, Luca, Lupa ou Lupina


A rainha Lupina certamente é uma das personagens míticas da Península Ibérica que mais me intriga, como se ela movesse a canção da minha alma, e este é o motivo principal de eu escrever esse texto. Outro ponto é o de que, como estudante de Druidismo, essa lenda galega traz em si muitos elementos da antiga espiritualidade celta na Ibéria, o que pretendo deixar claro no decorrer do texto. Como uma figura mítica, o conhecimento da rainha parte tanto de uma fonte literária cristã (combativa à fé pagã), quanto do imaginário popular, e ambos serão a base desse estudo. Porém algumas hipóteses pessoais serão abordadas, não como verdades absolutas, mas como possíveis ligações e questionamentos, pois alguns elementos simbólicos nos levam a elas.
Primeiro ponto: Quem é a Rainha Lupina? (também chamada de Loba, Lupa ou Luca, usamos aqui o termo mais utilizado)

O nome Lupina, em si, é um nome latino, mas o que não é suficiente para afirmar que ela seja uma entidade romana, pois com a chegada dos romanos na Península Ibérica muitos dos deuses e encantados das populações que ali viviam, sofreram latinização em seus nomes, como as janas, que passaram a se chamar de ninfas. Com o decorrer do texto, veremos que os simbolismos de Lupina, em grande maioria, são do imaginário dos celtas da Iberia.
A literatura clássica a liga ao culto jacobeu do Apóstolo Santiago, onde ela aparece como uma rainha real, devota da fé pagã, que possuía uma imagem do Iúpiter Celta (Júpiter na Península, parte de uma interpretatio de deuses celestes celtas, como Reue, o deus dos montes elevados), que dominava o poder da magia e que fez de tudo para que os discípulos não levassem o corpo do apóstolo ao Pico Sacro, onde em uma das covas estava o castelo da rainha. Porém com fé os discípulos vencem a rainha e ela se converte a fé cristã. Algumas coisas importantes a se dizer esse respeito: a Rainha inicialmente toma a figura de espécie de Meiga (mulheres que dominam a magia para “malefício” humano, a popular bruxa, uma designação própria da Ibéria), porém seus desafios aos discípulos, de controlar bois que se tornam touros selvagens e de vencer a serpente em que ela se torna, afirma sua condição de Moura (e não de Meiga). Outra evidência que reafirma isso é o de seu castelo estar ali, no Pico Sacro, lugar comum das moradas de mouras e mouros, além do fato de os discípulos lhe servirem vinho e de ela estar fiando quando chegaram.  O que vemos na lenda jacobeia não é nada mais do que a cristianização do Pico e a tentativa de apagar a fé pagã.
Nas histórias orais, coletadas no imaginário popular, ela realmente, aparece como uma moura encantada, uma rainha que possui um castelo em montes altíssimos, como o Pico Sacro (Santiago de Compostela) e o Monte Pindo (La Coruña), em castros e fontes. Ela faz trato com os humanos, fia, cuida dos rebanhos, guarda tesouros, tem servos e transforma-se em serpente, e aqui ela não se converte ao cristianismo, permanece com seu espírito selvagem de Rainha Moura.

As Mouras e Lupina

As mouras são chamadas também de princesas, moças e rainhas. Em base são seres encantados que cobriram e permanecem no imaginário da Península Ibérica, principalmente ao norte.
São vistas perto de covas funerárias, em covas dos altos montes e próxima das águas (em Astúrias e Portugal, as encantadas das águas também são chamadas de Xanas ou Janas, e tiveram ligação com a Deusa Nábia). Naturalmente são mulheres velhas ou jovens muito belas de cabelos ruivos ou loiros, e estão a fiar ou pentear os longos cabelos ou cuidando de rebanhos.
Essas encantadas possuem tesouros que oferecem aos homens, desde que não tenham medo do desafio proposto. Na maioria das vezes, as mouras se transformam em serpentes imensas e envolvem os corpos dos homens, e aqueles que não se amedrontarem receberão seu tesouro. As serpentes são um símbolo da mulher selvagem, a qual une em si a vida e a morte, a visão da Soberania que não pode ser simplesmente tomada, mas tem que ser conquistada. Só é digno de um tesouro quem não teme a morte e a Soberania feminina. Outro desafio é tirar uma flor da boca da serpente, o que também exige coragem.
Elas também fazem tratos com os homens em que sua prova é a fidelidade, pois têm que manter segredos ou cuidado com algo para então receberem o bem necessário, e a traição a uma moura naturalmente é punida com a morte.
A Rainha Lupina aparece também como essa mulher selvagem, que desafia os homens, até mesmo no caso dos discípulos do apóstolo, que tem que mostrar coragem para ter o que desejam. Em uma das histórias da cultura popular, ela alimenta os porcos de um pastor, os quais passam a engordar rapidamente. O pastor, curioso pela engorda misteriosa dos porcos, os segue e descobre que eles estão comendo no pasto de Lupina; ela lhe diz que, como recompensa, ele tem que lhe dar os melhores chouriços, porém a dona dos porcos, na hora da entrega, troca, propositalmente, os chouriços, e Lupina recebe o de menor qualidade, sendo assim punida por ela, devorada por serpentes e seu esqueleto permanecendo pendurado no castelo da Rainha.
A diferença real de Lupina com as demais mouras é a de que o seu epíteto de Rainha não é apenas uma delicadeza: ela de fato tem um castelo encantado, súditos, riqueza e rebanho.
Os simbolismos em Lupina e a possível ligação com Deuses da Ibéria Celta
   Partimos agora para entender os simbolismos dentro da lenda de Lupina e algumas hipóteses importantes a serem levantadas.
   O Pico Sacro é uma formação rochosa que fica no norte da Espanha, especificamente em Santiago de Compostela, Galiza. A lenda clássica nos conta que foi nesse local que os discípulos do apóstolo Santiago encontraram Lupina, uma rainha muito bela, muito branca e de cabelos ruivos. Enquanto ela fiava, eles lhes pediram bois para carregar o corpo até o alto do monte; eles lhe deram vinho e ela lhes deu os bois. Durante o translado, os bois se tornam selvagens touros, e aqui passamos a uma análise desse símbolo, os touros bravios. Um ponto a mais para ajudar-nos em alguns levantamentos de hipótese é o de que outra história sobre Lupina (essa não clássica, mas popular) nos conta que ela tinha servos que levavam seus touros a beberem águas no rio Ulla, o qual era parte da sua propriedade. Essa informação é muito importante, pois ela nos liga ao deus callaico-lusitano Bandua, cujo animal símbolo é o touro selvagem, e o rio Ulla foi uma região de sua devoção, portanto não podemos deixar tal ponto passar despercebido. Bandua era o deus dos ajuntamentos populacionais, ligado às batalhas e, se formos mais além, as aparições de Lupina perto dos castros e seus auxílios às comunidades não a distanciam dessas características de Bandua.
   A serpente, um dos símbolos de Lupina, foi um dos animais mais esculpidos em pedras e artefatos arqueológicos na Ibéria Celta, o que levou alguns pesquisadores acreditarem em um culto ofiolátrico na península, o que não se comprovou até hoje. Independente de um culto ou não da serpente, sua importância é sem igual no imaginário da Península. A serpente aparece como símbolo da fertilidade, vida, morte e magia. Ela é o elo da vida quando se mantém em círculo, talvez por isso, em algumas pedras, ela tenha sido grafada simbolizando a eternidade do amor. Sua troca de pele nos lembra o constante renascer; o seu veneno pode tanto ser a morte como a cura, e o viver embaixo da terra mostra a sabedoria do submundo.
   A crença de proteção ao entorno vital é perceptível tanto na Lúnula do Chão de Lamas, assim como nos torques. Sua relação com a morte está nos vasos funerários e nos dolmens.  Mas como já vimos nas mouras, ela é também o espírito da mulher selvagem e da Soberania, da mulher que conhece a sabedoria da vida e da morte, onde o prazer se encontra.
 Lunula Lusitana do Chão de Lamas

   O nome Lupina já foi analisado por muitos ângulos, mas não se chegou à uma conclusão definitiva, pois não houve uma confirmação de tal. Nossa ideia aqui é levantar uma hipótese que ainda não foi levantada, porém nem por isso podemos ignorá-la ou recear em fazê-lo, pois é uma hipótese entre tantas, que não tem pretensões de ser verdadeira ou única. Vamos a ela: a Península Ibérica era infestada por lobos e, se pudéssemos pensar em um animal símbolo da Ibéria, os lobos seriam eles. Mas qual o significado dos lobos para os antigos povos pagãos da península? O lobo era a fúria do guerreiro, e os soldados das confrarias uivavam como lobos assustando os soldados romanos. Acreditava-se que havia um rito iniciático nessas confrarias para despertar a licantropia, onde um homem carregaria em si a essência do lobo, e que esses guerreiros passavam por um processo mágico, tendo como iniciador provável o deus vetão Vaélico, Deus-Lobo, Senhor do Outro Mundo, dos mistérios da magia e do futuro. Então paramos para aproximar Lupina e seu nome dessa figura guerreira, e podemos colocá-la nessa relação como uma provável mulher que não só tinha em si o furor da batalha, como também era conhecedora dos mistérios do Outro Mundo e da magia. Ela era uma rainha encantada, uma figura mítica, não há registro algum da sua existência de fato, tinha bois encantados e dominava a magia, assim como a deusa irlandesa Medb.

Rainha Lupina: Uma Encantada ou Uma Deusa Perdida?
Essa pergunta é muito importante, apesar de não haver uma resposta de fato, apenas observações a se fazer. Dentro do folclore dos demais países celtas, vimos suas deusas se tornarem santas ou fadas. Há rainhas das fadas, mulheres feéricas que interagem com os humanos e até mesmo se casam com eles, e a eles também são postas condições a serem seguidas (que dizem muito sobre a soberania feminina) e a violação dessas condições trazem malefícios a esses homens. Por que na Península Ibérica seria diferente? As mouras são as feéricas da Ibéria, isso não me parece ser algo contestável.
Dentro do decorrer do texto, vimos a possível aproximação de Lupina com diversas divindades celtas. Seus símbolos são totalmente ligados à antiga fé pagã céltica e tem poucas relações com o misticismo romano, a não ser pelos costumes mesclados entre os dois povos.
A figura da Rainha Lupina, pode ou não ser de uma deusa perdida (ou até uma anexação de diversos deuses), uma deusa da Soberania, ligada à magia, à iniciação guerreira, vida, morte, sexualidade, fertilidade e terra, mas ainda sim diz muito sobre as crenças e devoções dos povos da Ibéria Celta, e ela foi totalmente usada pelo Cristianismo para evangelizar o espaço e apagar ou tornar reprovável qualquer resquício da fé pagã céltica na Península Ibérica.
Fonte Bibliográfica:
HOYOS, Ana Mª Vázquez – Los Posibles Cultos a la Serpiente y los Celtas en la Península Ibérica, p.349. Etnoarqueologia: 2007.
LLINARES, María del Mar – Las Relaciones entre cultura popular y Cultura Oficial: El Ejemplo de la Reina Lupa, p.57- in: Mouras, Ánimas, Demonios – El Imaginario Popular Galego – Madri: Akal Universitária, 1990.
__________________  Mouras Versus Hombres: la Imagen de la Mujer en La Cultura Popular, p.137 - in: Mouras, Ánimas, Demonios – El Imaginario Popular Galego – Madri: Akal Universitária,1990.
OLIVARES PEDREÑO, Juan Carlos – Bandua, el Protector de La Comunidad in: Los Dioses de la Hispânia Céltica -Madrid : Real Academia de la Historia : Universidad de Alicante, 2002. 

____________________________ El Dios Indígena Bandua y El Rito del Toro de San Marcos – Madri: Revista Complutum, ed.8, 1997.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Deusa Nábia - Última Parte

                                           Oração à Nábia



Oh, Nábia Corona,
Senhora dos altos montes,
Do instinto e força natural,
Ensina-nos a soberania,
Que brota dos pensamentos e intuições elevados
Como um cume de uma montanha
Que recebe as luzes solares,
Assim são as luzes da sabedoria,
Sabedoria de quem conhece o mais profundo de si.

Oh, Nábia das tribos,
Seu escudo e espada
São nossa proteção diária.
Um fogo sempre aceso
Mantém-nos unidos em sua presença
Diante de ti não tememos,
Guarda da nossa união,
Das nossas conquistas,
Guia e protetora das nossas batalhas,
Ao teu nome rendemos cada vitória.

Nábia, senhora das águas,
Do entremeio dos mundos,
Mãe nutridora,
De ti vem a fertilidade das nossas vidas,
O conhecimento íntimo da nossa existência humana,
Guia-nos nos mistérios da vida e morte.

Nábia da Callaecia,
Relembramos o teu nome
E rendemos graça,
Como nos tempos antigos,
Estás viva!